Dra. Waleria Torres, M.S., Ph.D.
Gendercare Gender Clinic
Portavoz da OII-Organização Internacional de Intersexuais em lingua portuguesa.
Nasci na cidade de São Paulo, Brasil, em 1950. Fui reconhecida e registrada como um menino. Oficialmente, até hoje, quem é registrado como menino no Brasil, não pode mais mudar o registro, que é considerado certo e infalível.
Com 17 anos entrei na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, como um menino. Estudei e me formei como um menino. Trabalhei e continuei estudando como um menino.
Me casei com uma bela mulher como um menino, e tive filhos, sendo pai como um menino. Me separei e me casei de novo com uma advogada absolutamente fascinante. Tive mais um filho, como um menino. Ela foi embora com a criança, um dia.
O engenheiro queria morrer. Pensou em se tornar um padre católico, foi convidado pela arquidiocese para estudar teologia.
Na véspera de entrar no seminário definitivamente optando por ser padre e quem sabe monge beneditino... sua natureza íntima feminina, que sempre fora sufocada mas desde a mais tenra infância estivera lá... apareceu e protestou: E eu?
Waléria surgiu naquele dia... não com esse nome. Sem um nome eu poderia ter muitos nomes. Aos 6 para 7 anos de idade sonhei que era Martha. Assim surgiu a Martha e depois Camilla e depois... Waléria, entre outros nomes. Eu diria que meu nome mais "oficial" hoje é Waléria.
Não podia continuar trabalhando com engenharia. Abandonei radicalmente mais de 20 anos de profissão, todos os antigos contatos... perdi muito dinheiro... abri mão do muito que tinha, para ser enfim eu mesma.
Precisava desenvolver uma nova carreira... precisava sobreviver com mais de 40 anos de idade... e em transição ainda por cima.
Fui estudar a dinâmica da formação da identidade de gênero... primeiro na Biblioteca da Bireme em São Paulo, ligada à Faculdade Federal de Medicina de São Paulo. Estudei mais de 2 anos, e escrevi meu primeiro livro sobre o assunto usando o pseudonimo de Martha Freitas: "Meu Sexo Real - a origem inata, somática e neurobiológica da transexualidade", publicado em 1998 pela Editora Vozes.
Participei de "talk shows" na TV brasileira, em rádios.
Passei por uma cirurgia de readequação sexual MtF em 1997, pelo Dr.Jurado, PhD.
Recebi convites para dar aulas em cursos "lato sensu" de pós-graduação sobre disforias de gênero no SBRASH - Soc. Bras. Estudos em Sexualidade Humana, em 1999, e depois resolvi me submeter a um exame para bolsa da CAPES para Mestrado em Sexologia na UGF-Universidade Gama Filho no Rio de Janeiro.
Bolsista, consegui em 2002 meu "cum laudae" da banca formada por Dr. Pedro Jurberg, PhD (neurobiologia); Dra.Marise Jurberg, PhD (psicologia) e Dra. Suzana Herculano-Houzel, PHD pela Universidade de Paris (neurobiologia). Me tornei mestre em sexologia com a dissertação : Gênero, do Mito à Realidade.
Participei em 2001 do XV Congresso Mundial de Sexologia em Paris, onde apresentei dois trabalhos, e muitos de diferentes países me solicitaram: compartilhe seu conhecimento, nesses casos estranhos não sabemos o que fazer.
Assim em 2001 fundei a Gendercare Gender Clinic, em 2002 passei a integrar como membro titular a HBIGDA-Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association, e agora em 2006 fui convidada e aceitei com muita honra e prazer, fazer parte do "board" da OII- Organização Internacional de Intersexuais, como portavoz dessa sociedade para países em lingua portuguesa.
Não mais como um menino, mas como uma menina.
Durante este perído de estudos e de trabalho em variâncias de gênero as mais variadas, tenho percebido que na realidade o gênero, como auto-percepção da própria realidade existencial, abrange uma enorme diversidade, que transcende e muito qualquer classificação simplista de duas polaridades apenas. Existe um campo, o que defino um "Rspaço de Gênero", e nesse espaço se pode ser mais M - masculino, mais F - feminino, ou podemos viver num estado intermediário, e a formação dessa identidade, dinamicamente, pode ser estudada e conhecida.
Minha matemática, meu conhecimento de psicologia e filosofia... tenho usado para desenvolver esse conhecimento em sexologia, para aplicar em terapia de gênero.
Obrigada,
Rio de Janeiro, 17 de Agosto de 2006.